“O SIM DE MARIA CRUZA-SE COM O SIM DE CRISTO”[1]
1 - QUEM É MARIA?
2 - A PESSOA DE MARIA E A MARIOLOGIA
3 - MARIA MÃE DE JESUS E O SEU PAI JOSÉ
4 - MARIA A MULHER DE NAZARÉ
5 - MARIA E A LUZ DE MARIA
6 - MARIA COMO OLHAR DE FÉ…
7 - O SIM DE MARIA
8 - FIXAR O EXEMPLO DE MARIA
9- A MISSÃO DE MARIA
10 - O TESTEMUNHO VIVO DE MARIA
11 - MARIA E O SOFRIMENTO
12 - A MEDIAÇÃO DE MARIA
13 - MARIA, OS JOVENS E A SUA LINGUAGEM
1 - QUEM É MARIA?
Maria é uma jovem judia, esposa de José, Mãe de Jesus de Nazaré, a quem a comunidade cristã confessa como Mãe do Messias, o Filho de Deus feito homem.
2 - A PESSOA DE MARIA E A MARIOLOGIA
Convém distinguir, mas não separar, a pessoa de Maria da “mariologia”. A “mariologia” é a reflexão teológica sobre a pessoa e a missão de Maria que se afirma na fé. Maria, pelo contrário, é uma pessoa com a sua trajetória histórica, que tem também – como é lógico – uma importância fundamental para que a reflexão sobre Maria não seja puramente histórica da mulher de Nazaré; ou para que não seja uma simples elaboração teórica e ideológica doutrinal sobre ela e por causa dela.
3 - MARIA MÃE DE JESUS E O SEU PAI JOSÉ
As fontes documentais apresentam Jesus como “o filho de José” (Lc 3,23; 4,22 e Jo6,42), “Jesus de Nazaré filho de José” (Jo 1,45), ou seja, “como o filho do carpinteiro” (Mt 13,55), mas também “como filho de Maria” (Mc 6,3). É assim evidente que a Mãe de Jesus se chama Maria; Ela também é citada desta forma em Act 1,14. O nome de Maria, em referência à Mãe de Jesus, está ausente no Evangelho de João, por razões internas do próprio escrito, mas está presente, tanto em Mt (1,18; 2,11; 13,55) como em Mc (86,3) ou em Lc (1,41-42; 2,5-7; 2,34). Isto não significa que em diferentes circunstâncias – também em João – não haja referências à “Mãe” de Jesus, embora o seu nome não esteja citado: na visita que esta e os irmãos d’Ele fazem a Jesus quando Ele está em Cafarnaum (Mc 4,31-35; Mt 12,46-50; Lc 8,9-21), no episódio das Bodas de Caná (Jo 2,1-12) e no episódio ao pé da cruz (Jo 19,25-27…).
4 - A MULHER MARIA DE NAZARÉ
O significado do nome Maria, não encontra acordo em muitos autores. Considera-se como mais plausível, que o nome de Maria derive de um composto egípcio/hebraico: Myr-ya/yam que significa amada de Deus ou -Yahveh – ugaritico mrym – que significa altura, isto é, a excelsa, a sublime, que em tom poético, a liturgia católica saúda Maria como “Stella Maris”, ou seja, estrela-do-mar, estrela polar, a mais brilhante, a mais alta e suprema que a todos nos ilumina.
O Novo Testamento e toda a tradição cristã estão de acordo que a jovem judia Maria foi a mãe de Jesus. Nos Evangelhos podemos ver Maria como mãe que segue com atenção os passos do seu filho, guiada por um espírito de fé que vai conhecendo gradualmente até à compreensão cada vez mais profunda da missão e da identidade de Jesus – do filho – e a leva a uma disponibilidade maior em “dá-lo” para a realização do projeto divino. Neste sentido, vemos Maria ao lado de Jesus e comprometida na sua ação e atividade apostólica (Jo 2,1-11); ao pé da cruz, a sofrer com Jesus (jo 19,23-27).
Os Evangelhos falam-nos ainda do encontro com Jesus Ressuscitado. Ainda neste contexto, os Atos dos Apóstolos apresentam Maria, entre os discípulos e Jesus, depois da sua morte, no começo da vida da comunidade e na tarefa missionária da igreja (Act 1,14).
A tradição cristã, ao longo dos séculos, fala que Maria subiu ao Céu pelo poder de Deus…
5 - MARIA E A LUZ DE MARIA
Como sabemos, hoje, em todas as igrejas e santuários cristãos, Maria, a Mãe de Jesus está presente. Atualmente presta-se muita atenção ao dado histórico concreto da vida da Mãe de Jesus.
De modo muito particular, e diferente do passado, acentua-se mais a verdadeira e autêntica humanidade que trás consigo a experiência do sofrimento e, por sua vez, o amadurecimento espiritual da fé e das virtudes. Maria é, nesta perspetiva, a consciência cristã que está inserida na trama histórica da humanidade. Ela viveu a humanidade de ser mulher como uma outra mulher qualquer do seu tempo, mas também do nosso tempo, de todos os tempos, com todas as limitações a que qualquer mulher está submetida.
Maria é a expressão que assinala de maneira mais acertada a sensibilidade cristã e que restitui com Deus a humanidade que somos todos nós. A nossa humanidade.
6 - MARIA COMO OLHAR DE FÉ…
Maria com a sua profunda sensibilidade e abertura ao sim capta a essência da identidade transcendente do seu Filho. A jovem de Nazaré, aos olhos da comunidade cristã, revela-se como a Virgem que acolheu livremente Deus e que por ela o próprio Deus entrasse no mundo feito homem – Jesus Cristo.
Maria é, então, única e singular na história da salvação; ela achou graça diante de Deus. Por isso, os crentes vêm Maria, não como figura do passado, mas sim como a Mãe do Senhor que está presente no meio de nós e também, por isso, hoje ela é exaltada pelo próprio Filho, ela é a cheia de graça.
O olhar de fé com que olhamos Maria - mãe celeste, mãe protetora da nossa humanidade, estrela que nos guia – deve ser visto a partir da fé de Maria e do seu testemunho; a partir da sua história concreta que foi a disponibilidade de uma serva do Senhor: “Faça-se em mim segunda a tua palavra”. Pois, (re)situar Maria no dever concreto, de mulher crente e com dom singular de graça, é conceder-lhe mais espaço em nós para, como ela, olharmos Deus que nos fala e aceitarmos o desafio que todos os dias Ele nos lança; é por em relevo a fé que sustentou Maria, que por Maria também em nós e por nós deve ser sustentada.
7 - O SIM DE MARIA
Cristo é o coração da vida cristã. O sim exemplar de Cristo cruza-se indissoluvelmente com o sim de Maria. “O eis que venho para fazer a tua vontade”[2], não teria acontecido sem “o eis a escrava do Senhor”[3]. A presença de Maria não é decoração cristã é, acima tudo a primeira a responder sim ao mistério de Deus; é a resposta dos crentes a Cristo. Maria está presente desde sempre na vocação do seu filho. Desde o seu nascimento até à consumação no Calvário e na formação da Igreja de Cristo (Pentecostes). Ela mesma, respondeu primeiro do que os discípulos; ela mesma acreditou primeiro; ela é a resposta da resposta divina de cada discípulo de Jesus.
Maria é, por isso, uma luz que emite raios para toda a vida cristã, porque a vida e experiência de Maria não relata só o encontro com Deus, mas principalmente a abertura escancarada do seu coração ao próprio Deus através do próximo, e das profundezas do seu interior como apelo vivo à vida. Este apelo ensina-nos a receber em nossa casa (no nosso coração) o outro ou a outra como discípulo amado[4].
8 - FIXAR O EXEMPLO DE MARIA
Fixar a atenção em Maria significa captar prontamente a imitabilidade da sua vida. Imitá-la nos seus privilégios e na sua graça parece inacessível. Porém, Maria é uma luz edificante para todas as opções de vida, que livremente são assumidas como norma de vida, quando cada um de nós renuncia a sua auto-regulação para se sintonizar com a vontade do Jesus. (como Chiara Luce disse: Jesus se tu queres eu também quero[5]). Maria é interpelada na primeira pessoa, sem a possibilidade de pedir um conselho a ninguém nem adiar a resposta, nem a de explica-la (como?) ao seu noivo e futuro esposo. Em Maria evidencia-se o discernimento da resposta que empenha/compromete todo o seu ser; todo o seu eu, todo o seu espírito, toda a sua alma, todo o seu corpo, todo o seu passado, todo o seu presente e todo o seu futuro. Maria percorre um itinerário que vai da perturbação à interrogação e ao consentimento. Estas são etapas do chamamento; condição de uma resposta que dá forma a qualquer vida quotidiana, e é um diálogo que deixa espaço à liberdade de quem é chamado (o anjo fala três vezes e Maria reage outras tantas).
O chamador, Deus, através do mensageiro – Gabriel –, entra em diálogo com Maria. Maria é eleita por Deus, e Gabriel é o porta-voz que não propõe os seus pensamentos, mas sim os daquele que o enviou. Por isso, Maria não dialoga com o Anjo mas com Deus.
“Eis a serva do Senhor” – é uma entrega de si mesma, é o assentimento ao diálogo entre Deus e Maria: o eis-me compromete a vida de Maria – cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia, todos os meses e anos; confessar-se serva é uma resposta autêntica ao amor que lhe foi dado e reconhecer que não é dona dele, mas fiel servidora. Este é o olhar com que Deus olhou para Maria e Maria olhou para Deus… Um amor que nos embala e nos faz nascer de novo agraciados pela graça da vida. O olhar agraciado, que por amor, Deus deleita em nós: é o encontrar Graça aos olhos de Deus.
Por isso mesmo, a exemplo de Maria, eu já não posso viver fechado em mim, mas aberto de mim mesmo, para que o tu se possa conjugar num nós. Não posso viver fechado em mim mesmo, porque o fechamento leva-me a possuir e a possuir-me, a esconder-me e a agredir, tornando-me num coração duro e violento que não conhece a graça ou o dom da graça.
Maria ao encontrar o olhar de Deus e ao experimentar a sua doçura, jamais pode deixar de acolher e de ser acolhida; de acariciar e de ser acariciada; de dar e de repartir; de amar e de ser amada.
A descoberta deste amor só é possível quando nos “deixamos” amar primeiro por Deus (1J.4,19). Assim sendo, e uma vez que o nosso amor é sempre uma resposta, logo, não somos nós que fazemos o amor, mas é o amor que se faz em nós. No mesmo sentido, compreendemos que o amor não é nosso: não é meu, nem teu, é-nos dado! E se nos é dado, de graça o devemos dar. Pois na medida em que o recebemos, é a medida que o devemos dar. Por conseguinte, para amar o AMOR (Deus e homem) não devemos fazer exigências: embora primeiro nos espante (perturbe, depois nos interrogue), porque a verdade do AMOR não tem outra exigência senão a da entrega ao amor.
9 - A MISSÃO DE MARIA
A abertura a Deus provoca uma grande abertura ao próximo. Maria põe-se a caminho logo que aceitou a proposta de Deus, porque o dom de Deus deve ser partilhado sem demora. Ninguém é dono do amor de Deus, porque se erradamente considerar este amor como seu, aqui termina o amor. Na verdade, chamada por Deus, é levada pelo mistério que a envolve. Lucas descreve uma visita à sua prima Isabel (cf. Lc 1,39-56), mas a primeira viagem missionária de Maria foi levar Cristo ao mundo. Neste sentido, a grande missão de Maria, além de abraçar com amor ser a Mãe do Salvador, abraçou também cada homem, cada mulher, cada jovem e cada criança – a humanidade inteira para servir Deus no próximo.
10 - O TESTEMUNHO VIVO DE MARIA
Na noite em Belém, Maria conhece o poder e a fragilidade divina; e todos os seus gestos deixam transparecer o poder e a fragilidade humana. “Envolveu-o em panos e recostou-o numa manjedoura” (Lc 2,7). Os gestos de Maria são gestos maternos – iguais aos das nossas mães – comuns a qualquer mulher.
- envolve-o em faixas, porque é uma criatura indefesa; coloca-o numa manjedoura, porque é dom oferecido à humanidade… e Maria conservava todas estas coisas no seu coração, porque o coração é o lugar onde se escuta a voz de Deus e onde se ouve o silêncio para se interiorizar aquilo que o mesmo Deus quer de nós, mesmo até o sofrimento.
11 - MARIA E O SOFRIMENTO
Depois da epifania gloriosa, Maria aprende o sofrimento que a sua vocação de mãe de Jesus comporta a partir da fúria de Herodes. (todas as mães comportam o sofrimento dos filhos)…
Mas a violência do sofrimento não tem a última palavra. O Anjo ordena a José a fuga; tornam-se por isso exilados e fugitivos. Maria é, por assim dizer, educada pela obediência… porque uma “espada de dor trespassará o seu coração” (Lc 2,25-27).
O sim de Maria foi um perder-se a si mesma para se ganhar. É ao mesmo tempo perda e encontro. A mãe de Jesus é a primeira a conhecer a sabedoria do sofrimento, porque inteiramente decidiu obedecer à vontade do Pai – Jesus deve seguir a sua vocação… (nem sempre é assim com as nossas mães porque muitas vezes querem que os filhos sigam o que elas querem). Neste caso o que acontece é o Filho a educar a mãe e não a mãe a educar o filho; o filho educa a mãe a segui-lo e a mãe deixa-se guiar pela vocação do Filho.
Maria passa da perda (do filho) à procura; da pergunta à resposta, e da resposta à interrogação de Jesus. Não compreende, mas guarda no coração cada palavra e cada gesto de Jesus.
12 - A MEDIAÇÃO DE MARIA
Maria desenvolve nos discípulos, em cada um de nós, uma resposta positiva à palavra de Jesus. “Fazei o que Ele vos disser!” (Jo 2,5). Neste fazei, está concretização da mediação de Maria para que, como os discípulos, também nós possamos abrir os olhos do coração para sem medo seguir Jesus Cristo.
É por isso que Maria atrai muita atenção na mediação entre os homens e o seu Filho. Mas é importante dizer que na orientação mediadora, Maria não se dirige para si mesma, mas dirige-se toda e a todos para Cristo; se chama a si o olhar dos homens, é para que os homens o voltem diretamente para Cristo, porque só Cristo pode transformar verdadeiramente em bom vinho a água que trazemos nos jarros.
13 - MARIA, OS JOVENS E A SUA LINGUAGEM
Há uma zona de sombra entre Maria e os jovens. É necessário falar de Maria aos jovens com uma linguagem acessível e compreensível; é preciso mostrar aos jovens lugares e espaços; testemunhos e acolhimento; oração e entrega; disponibilidade e escuta; acompanhamento espiritual e envolvimento caritativo.
A linguagem de Maria só é compreensível quando eu digo sim, por que dizer sim é implicar-se; e o sim implica ouvir a voz de um fino silêncio que habita dentro de nós, e essa palavra que não faz barulho é o sentir o sentido da vida; e o sentido da vida encontra-se no silêncio da Palavra de Deus. Essa Palavra poderosa que prende e liberta; que assusta e que alegra; que preocupa e suaviza; que compromete e anima; que ama e que se deixa amar; que escuta, sem estar presente; que sossega quando estou tenso; que me embala quando estou e que me acorda quando durmo; é uma voz presente parecendo ausente; é uma voz silenciosa que nunca se cala.
A Palavra de Deus é um som que nunca se ouve e um silêncio que nunca se cala… Maria percebeu a linguagem de Deus e a linguagem de Deus é a linguagem de Maria, porque quem aceita o desafio de Deus não fala por si e em si, mas fala por si de Deus e por Deus.
Ela foi a primeira a compreender uma nova linguagem e para perceber a linguagem de Deus basta (que é muito) dizer SIM: “Eis-me aqui Senhor, faça-se segundo a Tua vontade”.
Paróquia de São Pedro de Cesar, 25 de Abril de 2012.
Carlos Costa Gomes.
[1] Tema apresentado ao Grupo de Jovens da Paróquia de Carregosa, em 28 de Abril de 2012.
[2] Cf. Heb, 10,5-9
[3] Cf. Lc 1,38
[4] Cf. Jo 19,27
[5] ZANAZUCCHI, Michele – Chiara Luce. Roma: Editora Cidade Nova, 2010.
